30 novembro 2012

Perdas e ganhos!


Quando perdemos ou ficamos privados de uma situação ou mesmo de algo, nessa altura é que damos o devido valor.  

Quando a nossa condição física nos permite caminhar, saltar e correr, não damos valor à pedra preciosa que temos na mão, só quando a perdemos, é que sabemos realmente o seu valor.

Na minha situação atual, costuma dizer-se que não é carne nem é peixe. Estou numa fase que já ando sozinha, mas tem de haver alguém por perto durante a marcha, contudo no treino no tapete que envolve: no gatinhar, rastejar, atividades de joelhos, etc., já sou bastante independente.

Não pensem que me estou a queixar, pelo contrário, estou muito contente com os meus progressos ao longo destes anos todos.

O sentimento de perder algo (como por exemplo, um objeto que gostamos, uma amizade, a nossa independência, um amor, etc.), deixa-nos fragilizados e tristes, parece que nos tiraram o tapete e ficamos sem chão. Mas não podemos ficar agarrados àquilo que se perde, pois isso faz parte do passado.

No meu caso a perda foi considerável. Pois perdi quase tudo o que tinha conquistado ao longo da minha vida, só não perdi o amor dos meus pais, do meu irmão e família. Perdi a possibilidade de exercer a minha profissão, que tanto gostava, um casamento e uma casa já planeados, pessoas que julgava minhas amigas e que não o foram, concluindo, passei por muitas deceções.

Ganhei também uma grande lição de vida, ao ver o mundo de outro modo. Pensei lutar pelas minhas vitórias e sobretudo aprendi a dar mais valor a pequenas coisas que a vida nos oferece, como já referi na mensagem aprendizagem. É preciso acrescentar que também acabei por fazer novas amizades com pessoas bem-intencionadas que me têm ajudado muito.

Apesar da minha realidade ser completamente diferente da realidade antes do acidente, continuo a ser bastante otimista, persistente, teimosa e ansiosa. Às vezes prejudico-me, por ter este feitio.

O que quero transmitir é: o que se perde no passado fica no passado, pois já não é possível voltar atrás para se recuperar. Aprendemos a lidar com as novas mudanças. Quem nos rodeia também aprende e aqueles que ignoram passam pela viva sem provar a sua verdadeira essência.

É claro que podemos pensar naquilo que perdemos de uma forma saudosa, acho que é natural. O que não é normal é ficar de tal modo agarrado ao que se perdeu, que não se aprende a dar o verdadeiro valor ao que se ganhou com a nova mudança.

Deste modo a nossa vida é composta por constantes lutas e batalhas sucessivas, perdas e ganhos. Assim não podemos baixar as armas, porque há sempre a esperança.

 

11 novembro 2012

Comunicar


Comunicar foi uma das tarefas mais difíceis que tive de enfrentar no início.

Quando estava no chamado “coma vígil” era o pânico total, porque quem estava à minha volta falava comigo, eu queria responder, mas não conseguia. As coisas estavam claras na minha cabeça, mas não conseguia transmitir o que queria dizer e também não percebiam o que eu estava a tentar dizer.
Era tudo uma grande confusão, pois eu não sabia o que me tinha realmente acontecido, e além disso, a minha falta de visão, na altura, também não ajudou.
 Comecei a comunicar através das letras do alfabeto, como já referi na mensagem “Despertar”.
A primeira palavra que pronunciei foi: “mãe”, pois a minha mãe estava sempre presente. Ela falava comigo, costumava ler-me um livro (cuja personagem principal era uma pessoa ativa, assim como eu era antes do acidente, o que fazia com que eu me identificasse nela), punha-me a ouvir as músicas de que eu gostava, etc., ela não descansou nesta fase.
Em seguida, comecei a pronunciar sons e outras palavras, e quando o fazia, todo o meu corpo tremia, pois usava os músculos todos para conseguir falar. Mesmo assim, quase ninguém percebia o que eu estava a dizer, exceto a minha mãe, o meu pai, o meu irmão e as pessoas que lidavam comigo diariamente no hospital da Ordem Terceira, onde estive internada até ir para Alcoitão. Essas palavras que fui aprendendo a dizer referiam-se a coisas que necessitava naquele momento.
Por exemplo, eu dizia a letra “A” quando me queria referir à água. Isto foi muito importante, pois passei muita sedinha e não percebia porquê, como já expliquei na mensagem “Despertar”. Foi a partir deste momento, que comecei a beber água com o auxílio de uma escova de dentes molhada.
Pronunciar a palavra “manta” foi essencial, porque tinha alterações da temperatura corporal. Como tinha muitos espasmos, estava sempre a destapar-me e depois tinha um frio de rachar.
 A palavra “otite” também foi importante, pois assim os enfermeiros perceberam que eu estava com dores no ouvido, podendo finalmente dar-me medicação. Só muito mais tarde percebi que estas dores nos ouvidos, talvez fossem provocadas pelas sessões de fisioterapia, uma vez que estas desafiavam o ouvido interno que contribui para o equilíbrio.
Poderia enunciar inúmeras palavras que também foram importantes, mas destaco apenas estas porque foram as primeiras. Depois, nunca mais parei de dizer novas palavras, finalmente podia falar.
Resumindo, claro que não comecei a falar claramente, mas quem me acompanhava compreendia o que eu dizia e isso bastava. Seguiram-se centenas de sessões de terapia da fala durante vários anos, mais adiante voltarei a falar acerca destas sessões.
É espantoso como o nosso cérebro é inteligente, digo isto porque as primeiras palavras que disse referiam-se a necessidades básicas que precisava no momento, o que significa que o nosso cérebro em situações extremas consegue adaptar-se.
Comunicar foi essencial na minha reabilitação. Permitiu interagir de forma eficaz com os meus terapeutas, existindo assim um feedback mútuo, o que foi muito importante.

03 novembro 2012

Bola Bobath


Desde sempre esta bola foi importante no meu processo de reabilitação, pois esta oferece muitos estímulos necessários para uma recuperação neurológica e não só.

Os estímulos pretendidos com a bola bobath são diversos, assim como: relaxamento muscular, alongamentos, equilíbrio, postura do tronco, ativação dos músculos do abdómen, estabilidade central e também ajuda a estimular as cinturas pélvica e escapular.

As atividades na bola bobath dependem da imaginação do terapeuta e dos músculos que têm que ser ativados ou desativados, conforme a necessidade.

O meu corpo adapta-se a cada estímulo novo e está em constante mutação, o que é bom, pois significa que o cérebro está a aprender.

Pessoalmente acho que este trabalho é muito importante, muito completo e é um dos que gosto mais.

Aqui estão alguns exemplos de uma pequena amostra desta panóplia extensa de exercícios que realizo:

Fig. 1: Treinar o equilíbrio e as cinturas.

Fig. 2: Alongamento.

Fig. 3: Alongamento.

Fig. 4: Ativação abdominal e cinturas.